Desiderio

Escrevi Desiderio em 2023, em New Haven (CT, Estados Unidos), enquanto realizava meu doutorado-sanduíche na Universidade de Yale. Na época, imerso em um ambiente de especulação crítica e criativa, conheci uma pesquisadora italiana cuja companhia inspirou e impactou muito o meu trabalho.

Em uma de nossas aulas informais de italiano e português, ela me ensinou a seguinte frase: “Cosa è il desiderio si non l’atesa stessa del desiderio?” (“o que é o desejo senão a própria expectativa do desejo?”), que remete à ideia de que o que há de melhor no desejo — a expectativa, a esperança desejante — morre quando o desejo se concretiza. A frase, citada em italiano na seção IV do poema, disparou a escrita do texto.

A redação do poema foi marcada, de um lado, por um longo processo de reflexão acerca do desejo, e, de outro, por um complexo exercício de experimentação com os limites de duas formas poéticas que me são muito caras, pois são objetos centrais da minha pesquisa de mestrado e doutorado: o verso livre tradicional/whitmaniano (ou VLT, marcadamente longo e não-enjambado) e o verso livre novo/williamsiano (ou VLN, marcadamente curto e enjambado).

Assim, Desiderio é atravessado por experiências crítico-criativas pessoais em um contexto de trocas culturais no exterior, tudo isso dramaticamente encenado em uma busca de sentido dentro de uma relação afetiva na qual os signos de três lugares distantes (Brasil, Estados Unidos e Itália) se chocam e geram sinais dúbios, muitas vezes invertidos. Uma busca de sentido que, se aponta para uma realização do desejo e para um achado iminente, não chega a materializar uma descoberta que faça jus à expectativa. Ou melhor: a busca que permite entrever, no ínfimo instante em que a esperança desejante e a concretização do desejo se encontram, uma espécie de lampejo fugaz, irresoluto, que não chega a redimir, mas ao menos ofusca uma certeza sombria.

A obra foi finalista do 4º Prêmio Internacional Pena de Ouro 2023.

 

Desiderio

I.

Se a águia deixa cair a corça sobre o altar em que suplicamos vitória,

redobramos os ânimos; se a cobra chacina os nove ninhegos, sabemos que

se encerra a guerra dos nove anos. Se a revoada de cisnes cruza

o Mediterrâneo em glória, avançamos. Olhos arregalados, observamos

a dança das aves. Sequiosos de indícios, seguimos; indícios

 

não vêm. Estorninhos já não murmuram recados do além.

Ansiamos sinais de cessar a guerra; no céu, os olhos nada veem.

Paciência. Segue a contenda. Ademais, Agamêmnon em nós está à espera

de humilhar profetas. Lutamos de dia, guardamos a noite. Sempre foi assim.

 

Mas, aqui, neste lugar distante, é à noite que as aves vêm. Esta, que desdenha

a claridade, em sua furna noturna inventa cifras e me chama para ser lida.

 

II.

Finda a rotina de luz e cor do meu sul solar, eu usava lanternas para iluminar

os caminhos de mim mesmo e penetrar as trevas. Hoje, nesta noite negra de piche, é você

que busco — e, mesmo sem lanterna, não ando a esmo. Porta entreaberta.

Não sei os olhos do ouvido e não distingo as plumas do breu, mas

aceito a linguagem que à noite as coisas falam e rejeito

 

o auxílio da tímida luz pálida — branca e austera luminescência de Yale

luzindo a longa reminiscência de York, amarela — que viola a densa treva do

seu quarto através da janela. Quero lê-la sem os olhos, mas cedo ao

ruidoso reflexo das suas pupilas de onça (no escuro, pantera):

 

duas esferas de flama sobre a bandeja negra da noite. Ave noturna, re

encena um conto de Siracusa da Itália; felina, sabe armada a armadilha.

 

III.

Feroz na tocaia, disposta ao bote, debaixo de um simples lenço, 

lança um olhar sobre o vulto que invade o apartamento

e ganha terreno lentamente, passo após passo,      

examinando a cena que se desvela. Logo entendo

ser presa da minha própria presa e não disfarço

 

o contentamento. Acuada, ela cede terreno e consente em

dividir o seu campo. Traiçoeira, vem à tona: desmonta os montes, despe

as serras, arrasa os relevos do fino lenço, revela o jaguar mexicano

tatuado em seu branco firmamento e expõe, finalmente, suas garras.

 

Ave noturna, olhos de Itália, pupilas de onça,

ela me atiça, e eu, emboscado, me assombro:

 

IV.

nada de grades — dançamos entre vãos de portas e

ventanas. Fartos de rotas de fuga, nada nos prende; já não há

escapatória. Véu cristalino, uma teia invisível nos costura; nada passa des

percebido na trama. Todos os caminhos levam a Roma. Todavia, ela surpreende

o arco sempre teso da promessa — e ainda mais teso

 

o atesa — ao perguntar, rompendo o hímen das palavras, che

cosa è il Desiderio si non l’attesa stesa del Desiderio?, e pronta

mente responder me cravando os dentes. De praxe, o sol nasce. Re

começa a guerra. Ontem, a eterna conquista do imanente; hoje,

 

a contenda. Aves de rapina deixam o roble, abutres me espreitam — veem que,

sob a pele das palavras, decifrada a dança da fera, ela está

partindo; sabem, talhada a carne da presa, o corpo deixado ao relento. 

 

Ave noturna, olhos de Itália, jaguar mexicano, ela me chama, eu venho.

Antes que me solte sua mandíbula indiferente, compreendo

 

— e nada ofusca o ouro do momento.


	

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