TraveLanguage – a Script

Showcased Works

  1. Eye-Poems

My initial foray into expanded poetry was through the creation of eye-poems. These works, composed of irregular lines, are focused on capturing specific scenes and objects, aiming to evoke the presence of something tangible in a particular moment. The sense of vision was central to this exploration of expanded poetic form.

  • Eye-Poem 1: Set in New Haven Green, this poem captures an everyday scene where a smashed fruit lies on the ground among joggers and passersby. The poem’s pivotal moment features a seed that gleams within the fruit, only to be suddenly pecked. The Portuguese verb “bicada” adds a layer of complexity, as it can mean both “kicked by someone” and “beaked by a bird,” leaving the image open to interpretation.
  • Eye-Poem 2: This piece is rooted in a memory of mine, depicting a forest fire spreading across a hill during an orange sunset, resembling a golden hat.

2. Dialogic Poems Inspired by Comic Books

This series of works draws inspiration from the techniques found in comic books and serial literature, particularly René Magritte’s painting The Lovers. The romantic yet disconnected imagery of the veiled kiss is reimagined in pairs of dialogues. One lover expresses a romantic idea, while the other responds with a disagreement, weaving references to historical events, music, and art, as well as iconic works like Shakespeare’s Romeo and Juliet and Fernando Pessoa’s Eros and Psiquê.

3. Infra-Reading: “Jaque Mate” by Augusto de Campos

This experiment revisits Augusto de Campos’ poem “Jaque Mate,” originally shaped like a chess piece. My infra-reading technique starts at the poem’s end, working backward step by step. This approach emphasizes the inseparability of a poem from its material form, highlighting how the message and its rendering are intrinsically linked.

4. O Pequeno Criado (The Little Servant)

In this piece, line breaks are used to create a dual meaning between a “criado” (an enslaved person) waiting by the bed and a “criado-mudo” (a bedside table). The original poem is presented in Portuguese with a black background, accompanied by a photograph. An English translation explores the polysemy of the original, followed by a simplified version that loses much of the cultural nuance, underscoring the losses inherent in translation.

5. Verbivocovisual Poem: The Persistence of Verse

This poem examines the persistence of verse as the foundation of poetic creation, even amid avant-garde movements like the metaverse. The term “verse” pulsates rhythmically within the poem, symbolizing its enduring presence. The poem concludes when the rhythm dissipates, giving way to prose.

6. 3D Object Poem: The Verse Roulette

This three-dimensional object poem is a customized hand spin casino roulette. The still center represents the verse, while the moving edges symbolize the experimental approaches that alter verse within different poetic regimes. Although participants can spin the roulette, the verse remains steadfast at the core, highlighting the permanence of verse.

7. Gambling and Permanence in Poetry

Building on the concept of chance, this poem draws inspiration from Stephane Mallarmé’s Un coup de Dés jamais n’abolira le hasard, a foundational modern poem that expanded the boundaries of poetic language through typography. The work reinterprets Mallarmé’s exploration of chance within the poetic form.

8. Poemeasure: A Tool for Measuring the Poetic

Finally, I present poemeasure, a conceptual tool that replaces numerical measurements with letters to gauge the poetic. Its interpretation is left open-ended, inviting reflection on what it means to measure the poetic.


Acknowledgments

I extend my gratitude to Professor Patrícia Lino for encouraging me to navigate the intersections of research, criticism, and creative writing. I also thank you for your attention and hope you find resonance in these works.

About the Artist

João Moura Fernandes is a Brazilian poet currently pursuing his Ph.D. at the State University of Rio de Janeiro and working as a Visiting Assistant in Research at Yale University. His research delves into the poetic forms and rhythms found in modern and contemporary poetry. The Expanded Brazilian Poetry course by Professor Patrícia Lino has been instrumental in broadening his perspectives and influencing his creative process.


Desiderio

Escrevi Desiderio em 2023, em New Haven (CT, Estados Unidos), enquanto realizava meu doutorado-sanduíche na Universidade de Yale. Na época, imerso em um ambiente de especulação crítica e criativa, conheci uma pesquisadora italiana cuja companhia inspirou e impactou muito o meu trabalho.

Em uma de nossas aulas informais de italiano e português, ela me ensinou a seguinte frase: “Cosa è il desiderio si non l’atesa stessa del desiderio?” (“o que é o desejo senão a própria expectativa do desejo?”), que remete à ideia de que o que há de melhor no desejo — a expectativa, a esperança desejante — morre quando o desejo se concretiza. A frase, citada em italiano na seção IV do poema, disparou a escrita do texto.

A redação do poema foi marcada, de um lado, por um longo processo de reflexão acerca do desejo, e, de outro, por um complexo exercício de experimentação com os limites de duas formas poéticas que me são muito caras, pois são objetos centrais da minha pesquisa de mestrado e doutorado: o verso livre tradicional/whitmaniano (ou VLT, marcadamente longo e não-enjambado) e o verso livre novo/williamsiano (ou VLN, marcadamente curto e enjambado).

Assim, Desiderio é atravessado por experiências crítico-criativas pessoais em um contexto de trocas culturais no exterior, tudo isso dramaticamente encenado em uma busca de sentido dentro de uma relação afetiva na qual os signos de três lugares distantes (Brasil, Estados Unidos e Itália) se chocam e geram sinais dúbios, muitas vezes invertidos. Uma busca de sentido que, se aponta para uma realização do desejo e para um achado iminente, não chega a materializar uma descoberta que faça jus à expectativa. Ou melhor: a busca que permite entrever, no ínfimo instante em que a esperança desejante e a concretização do desejo se encontram, uma espécie de lampejo fugaz, irresoluto, que não chega a redimir, mas ao menos ofusca uma certeza sombria.

A obra foi finalista do 4º Prêmio Internacional Pena de Ouro 2023.

 

Desiderio

I.

Se a águia deixa cair a corça sobre o altar em que suplicamos vitória,

redobramos os ânimos; se a cobra chacina os nove ninhegos, sabemos que

se encerra a guerra dos nove anos. Se a revoada de cisnes cruza

o Mediterrâneo em glória, avançamos. Olhos arregalados, observamos

a dança das aves. Sequiosos de indícios, seguimos; indícios

 

não vêm. Estorninhos já não murmuram recados do além.

Ansiamos sinais de cessar a guerra; no céu, os olhos nada veem.

Paciência. Segue a contenda. Ademais, Agamêmnon em nós está à espera

de humilhar profetas. Lutamos de dia, guardamos a noite. Sempre foi assim.

 

Mas, aqui, neste lugar distante, é à noite que as aves vêm. Esta, que desdenha

a claridade, em sua furna noturna inventa cifras e me chama para ser lida.

 

II.

Finda a rotina de luz e cor do meu sul solar, eu usava lanternas para iluminar

os caminhos de mim mesmo e penetrar as trevas. Hoje, nesta noite negra de piche, é você

que busco — e, mesmo sem lanterna, não ando a esmo. Porta entreaberta.

Não sei os olhos do ouvido e não distingo as plumas do breu, mas

aceito a linguagem que à noite as coisas falam e rejeito

 

o auxílio da tímida luz pálida — branca e austera luminescência de Yale

luzindo a longa reminiscência de York, amarela — que viola a densa treva do

seu quarto através da janela. Quero lê-la sem os olhos, mas cedo ao

ruidoso reflexo das suas pupilas de onça (no escuro, pantera):

 

duas esferas de flama sobre a bandeja negra da noite. Ave noturna, re

encena um conto de Siracusa da Itália; felina, sabe armada a armadilha.

 

III.

Feroz na tocaia, disposta ao bote, debaixo de um simples lenço, 

lança um olhar sobre o vulto que invade o apartamento

e ganha terreno lentamente, passo após passo,      

examinando a cena que se desvela. Logo entendo

ser presa da minha própria presa e não disfarço

 

o contentamento. Acuada, ela cede terreno e consente em

dividir o seu campo. Traiçoeira, vem à tona: desmonta os montes, despe

as serras, arrasa os relevos do fino lenço, revela o jaguar mexicano

tatuado em seu branco firmamento e expõe, finalmente, suas garras.

 

Ave noturna, olhos de Itália, pupilas de onça,

ela me atiça, e eu, emboscado, me assombro:

 

IV.

nada de grades — dançamos entre vãos de portas e

ventanas. Fartos de rotas de fuga, nada nos prende; já não há

escapatória. Véu cristalino, uma teia invisível nos costura; nada passa des

percebido na trama. Todos os caminhos levam a Roma. Todavia, ela surpreende

o arco sempre teso da promessa — e ainda mais teso

 

o atesa — ao perguntar, rompendo o hímen das palavras, che

cosa è il Desiderio si non l’attesa stesa del Desiderio?, e pronta

mente responder me cravando os dentes. De praxe, o sol nasce. Re

começa a guerra. Ontem, a eterna conquista do imanente; hoje,

 

a contenda. Aves de rapina deixam o roble, abutres me espreitam — veem que,

sob a pele das palavras, decifrada a dança da fera, ela está

partindo; sabem, talhada a carne da presa, o corpo deixado ao relento. 

 

Ave noturna, olhos de Itália, jaguar mexicano, ela me chama, eu venho.

Antes que me solte sua mandíbula indiferente, compreendo

 

— e nada ofusca o ouro do momento.


	

Desiderio

Escrevi Desiderio em 2023, em New Haven (CT, Estados Unidos), enquanto realizava meu doutorado-sanduíche na Universidade de Yale. Na época, imerso em um ambiente de especulação crítica e criativa, conheci uma pesquisadora italiana cuja companhia inspirou e impactou muito o meu trabalho.

Em uma de nossas aulas informais de italiano e português, ela me ensinou a seguinte frase: “Cosa è il desiderio si non l’atesa stessa del desiderio?” (“o que é o desejo senão a própria expectativa do desejo?”), que remete à ideia de que o que há de melhor no desejo — a expectativa, a esperança desejante — morre quando o desejo se concretiza. A frase, citada em italiano na seção IV do poema, disparou a escrita do texto.

A redação do poema foi marcada, de um lado, por um longo processo de reflexão acerca do desejo, e, de outro, por um complexo exercício de experimentação com os limites de duas formas poéticas que me são muito caras, pois são objetos centrais da minha pesquisa de mestrado e doutorado: o verso livre tradicional/whitmaniano (ou VLT, marcadamente longo e não-enjambado) e o verso livre novo/williamsiano (ou VLN, marcadamente curto e enjambado).

Assim, Desiderio é atravessado por experiências crítico-criativas pessoais em um contexto de trocas culturais no exterior, tudo isso dramaticamente encenado em uma busca de sentido dentro de uma relação afetiva na qual os signos de três lugares distantes (Brasil, Estados Unidos e Itália) se chocam e geram sinais dúbios, muitas vezes invertidos. Uma busca de sentido que, se aponta para uma realização do desejo e para um achado iminente, não chega a materializar uma descoberta que faça jus à expectativa. Ou melhor: a busca que permite entrever, no ínfimo instante em que a esperança desejante e a concretização do desejo se encontram, uma espécie de lampejo fugaz, irresoluto, que não chega a redimir, mas ao menos ofusca uma certeza sombria.

A obra foi finalista do 4º Prêmio Internacional Pena de Ouro 2023.

 

Desiderio

I.

Se a águia deixa cair a corça sobre o altar em que suplicamos vitória,

redobramos os ânimos; se a cobra chacina os nove ninhegos, sabemos que

se encerra a guerra dos nove anos. Se a revoada de cisnes cruza

o Mediterrâneo em glória, avançamos. Olhos arregalados, observamos

a dança das aves. Sequiosos de indícios, seguimos; indícios

 

não vêm. Estorninhos já não murmuram recados do além.

Ansiamos sinais de cessar a guerra; no céu, os olhos nada veem.

Paciência. Segue a contenda. Ademais, Agamêmnon em nós está à espera

de humilhar profetas. Lutamos de dia, guardamos a noite. Sempre foi assim.

 

Mas, aqui, neste lugar distante, é à noite que as aves vêm. Esta, que desdenha

a claridade, em sua furna noturna inventa cifras e me chama para ser lida.

 

II.

Finda a rotina de luz e cor do meu sul solar, eu usava lanternas para iluminar

os caminhos de mim mesmo e penetrar as trevas. Hoje, nesta noite negra de piche, é você

que busco — e, mesmo sem lanterna, não ando a esmo. Porta entreaberta.

Não sei os olhos do ouvido e não distingo as plumas do breu, mas

aceito a linguagem que à noite as coisas falam e rejeito

 

o auxílio da tímida luz pálida — branca e austera luminescência de Yale

luzindo a longa reminiscência de York, amarela — que viola a densa treva do

seu quarto através da janela. Quero lê-la sem os olhos, mas cedo ao

ruidoso reflexo das suas pupilas de onça (no escuro, pantera):

 

duas esferas de flama sobre a bandeja negra da noite. Ave noturna, re

encena um conto de Siracusa da Itália; felina, sabe armada a armadilha.

 

III.

Feroz na tocaia, disposta ao bote, debaixo de um simples lenço, 

lança um olhar sobre o vulto que invade o apartamento

e ganha terreno lentamente, passo após passo,      

examinando a cena que se desvela. Logo entendo

ser presa da minha própria presa e não disfarço

 

o contentamento. Acuada, ela cede terreno e consente em

dividir o seu campo. Traiçoeira, vem à tona: desmonta os montes, despe

as serras, arrasa os relevos do fino lenço, revela o jaguar mexicano

tatuado em seu branco firmamento e expõe, finalmente, suas garras.

 

Ave noturna, olhos de Itália, pupilas de onça,

ela me atiça, e eu, emboscado, me assombro:

 

IV.

nada de grades — dançamos entre vãos de portas e

ventanas. Fartos de rotas de fuga, nada nos prende; já não há

escapatória. Véu cristalino, uma teia invisível nos costura; nada passa des

percebido na trama. Todos os caminhos levam a Roma. Todavia, ela surpreende

o arco sempre teso da promessa — e ainda mais teso

 

o atesa — ao perguntar, rompendo o hímen das palavras, che

cosa è il Desiderio si non l’attesa stesa del Desiderio?, e pronta

mente responder me cravando os dentes. De praxe, o sol nasce. Re

começa a guerra. Ontem, a eterna conquista do imanente; hoje,

 

a contenda. Aves de rapina deixam o roble, abutres me espreitam — veem que,

sob a pele das palavras, decifrada a dança da fera, ela está

partindo; sabem, talhada a carne da presa, o corpo deixado ao relento. 

 

Ave noturna, olhos de Itália, jaguar mexicano, ela me chama, eu venho.

Antes que me solte sua mandíbula indiferente, compreendo

 

— e nada ofusca o ouro do momento.


	

Desiderio

Escrevi Desiderio em 2023, em New Haven (CT, Estados Unidos), enquanto realizava meu doutorado-sanduíche na Universidade de Yale. Na época, imerso em um ambiente de especulação crítica e criativa, conheci uma pesquisadora italiana cuja companhia inspirou e impactou muito o meu trabalho.

Em uma de nossas aulas informais de italiano e português, ela me ensinou a seguinte frase: “Cosa è il desiderio si non l’atesa stessa del desiderio?” (“o que é o desejo senão a própria expectativa do desejo?”), que remete à ideia de que o que há de melhor no desejo — a expectativa, a esperança desejante — morre quando o desejo se concretiza. A frase, citada em italiano na seção IV do poema, disparou a escrita do texto.

A redação do poema foi marcada, de um lado, por um longo processo de reflexão acerca do desejo, e, de outro, por um complexo exercício de experimentação com os limites de duas formas poéticas que me são muito caras, pois são objetos centrais da minha pesquisa de mestrado e doutorado: o verso livre tradicional/whitmaniano (ou VLT, marcadamente longo e não-enjambado) e o verso livre novo/williamsiano (ou VLN, marcadamente curto e enjambado).

Assim, Desiderio é atravessado por experiências crítico-criativas pessoais em um contexto de trocas culturais no exterior, tudo isso dramaticamente encenado em uma busca de sentido dentro de uma relação afetiva na qual os signos de três lugares distantes (Brasil, Estados Unidos e Itália) se chocam e geram sinais dúbios, muitas vezes invertidos. Uma busca de sentido que, se aponta para uma realização do desejo e para um achado iminente, não chega a materializar uma descoberta que faça jus à expectativa. Ou melhor: a busca que permite entrever, no ínfimo instante em que a esperança desejante e a concretização do desejo se encontram, uma espécie de lampejo fugaz, irresoluto, que não chega a redimir, mas ao menos ofusca uma certeza sombria.

A obra foi finalista do 4º Prêmio Internacional Pena de Ouro 2023.

 

Desiderio

I.

Se a águia deixa cair a corça sobre o altar em que suplicamos vitória,

redobramos os ânimos; se a cobra chacina os nove ninhegos, sabemos que

se encerra a guerra dos nove anos. Se a revoada de cisnes cruza

o Mediterrâneo em glória, avançamos. Olhos arregalados, observamos

a dança das aves. Sequiosos de indícios, seguimos; indícios

 

não vêm. Estorninhos já não murmuram recados do além.

Ansiamos sinais de cessar a guerra; no céu, os olhos nada veem.

Paciência. Segue a contenda. Ademais, Agamêmnon em nós está à espera

de humilhar profetas. Lutamos de dia, guardamos a noite. Sempre foi assim.

 

Mas, aqui, neste lugar distante, é à noite que as aves vêm. Esta, que desdenha

a claridade, em sua furna noturna inventa cifras e me chama para ser lida.

 

II.

Finda a rotina de luz e cor do meu sul solar, eu usava lanternas para iluminar

os caminhos de mim mesmo e penetrar as trevas. Hoje, nesta noite negra de piche, é você

que busco — e, mesmo sem lanterna, não ando a esmo. Porta entreaberta.

Não sei os olhos do ouvido e não distingo as plumas do breu, mas

aceito a linguagem que à noite as coisas falam e rejeito

 

o auxílio da tímida luz pálida — branca e austera luminescência de Yale

luzindo a longa reminiscência de York, amarela — que viola a densa treva do

seu quarto através da janela. Quero lê-la sem os olhos, mas cedo ao

ruidoso reflexo das suas pupilas de onça (no escuro, pantera):

 

duas esferas de flama sobre a bandeja negra da noite. Ave noturna, re

encena um conto de Siracusa da Itália; felina, sabe armada a armadilha.

 

III.

Feroz na tocaia, disposta ao bote, debaixo de um simples lenço, 

lança um olhar sobre o vulto que invade o apartamento

e ganha terreno lentamente, passo após passo,      

examinando a cena que se desvela. Logo entendo

ser presa da minha própria presa e não disfarço

 

o contentamento. Acuada, ela cede terreno e consente em

dividir o seu campo. Traiçoeira, vem à tona: desmonta os montes, despe

as serras, arrasa os relevos do fino lenço, revela o jaguar mexicano

tatuado em seu branco firmamento e expõe, finalmente, suas garras.

 

Ave noturna, olhos de Itália, pupilas de onça,

ela me atiça, e eu, emboscado, me assombro:

 

IV.

nada de grades — dançamos entre vãos de portas e

ventanas. Fartos de rotas de fuga, nada nos prende; já não há

escapatória. Véu cristalino, uma teia invisível nos costura; nada passa des

percebido na trama. Todos os caminhos levam a Roma. Todavia, ela surpreende

o arco sempre teso da promessa — e ainda mais teso

 

o atesa — ao perguntar, rompendo o hímen das palavras, che

cosa è il Desiderio si non l’attesa stesa del Desiderio?, e pronta

mente responder me cravando os dentes. De praxe, o sol nasce. Re

começa a guerra. Ontem, a eterna conquista do imanente; hoje,

 

a contenda. Aves de rapina deixam o roble, abutres me espreitam — veem que,

sob a pele das palavras, decifrada a dança da fera, ela está

partindo; sabem, talhada a carne da presa, o corpo deixado ao relento. 

 

Ave noturna, olhos de Itália, jaguar mexicano, ela me chama, eu venho.

Antes que me solte sua mandíbula indiferente, compreendo

 

— e nada ofusca o ouro do momento.


	

Finalista do 4º Prêmio Internacional Pena de Ouro 2023

https://www.casabrasileiradelivros.com/post/pena-de-ouro-2023-conhecendo-os-finalistas-jo%C3%A3o-moura-fernandes-categoria-poema

Meu poema Desiderio ficou entre os finalistas do 4º Prémio Internacional Pena de Ouro (2023).

O Pena de Ouro é um concurso literário para CONTOS e POEMAS avulsos com uma das avaliações mais consistentes de toda a lusofonia: são jurados de NOVE PAÍSES diferentes para avaliar os textos finalistas. A edição de 2023 contou com mais de 2000 textos inscritos. O Prêmio também conta com uma das maiores premiações para concursos do gênero.

Nos próximos meses, será lançado um livro com os poemas dos dez finalistas de cada categoria do prêmio.

Os ensaios longos do poeta-crítico Mário Faustino

O artigo, publicado na tradicional Revista Remate de Males (UNICAMP, Qualis A2), foi escrito em coautoria por mim e pelo meu pai, Braulio Fernandes. O PDF do texto pode ser acessado através do hiperlink acima ou do arquivo anexado abaixo, após o Resumo.

RESUMO

O poeta-crítico Mário Faustino (1930-1962) – vitimado por um acidente de avião aos trinta e dois anos de idade, no auge da sua produção – raramente é ignorado pelos estudiosos da poesia brasileira dos anos 1950 e da sua crítica. Os poemas do autor e as discussões por ele levantadas na sua página “Poesia-Experiência” (publicada semanalmente no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil entre 1956 e 1958) tornaram-se, de fato, tópicos incontornáveis para compreender os debates literários daquele momento. Neste artigo, o que se pretende é apresentar a trajetória crítico-criativa de Faustino para, assim, situar e abordar mais detidamente a parte da obra do autor que merece mais atenção: a dos ensaios longos, de caráter instrumental e didático, notadamente a daqueles compostos como “Diálogos de oficina”. Empreendemos a nossa investigação em seis breves etapas: na primeira, apresentamos um panorama da carreira do autor, destacando os desafios estéticos que ele buscou superar; na segunda, o modo como se organizou a sua obra, tendo em vista situar os três ensaios/diálogos de oficina eleitos para discussão nas etapas seguintes; na terceira, o modo como a última parte dessa obra se baseou em uma determinada poética de fragmentos; na quarta, o pensamento do autor sobre a relação poesia-sociedade, base do ensaio “Para que poesia?”; na quinta, as teses de Faustino sobre as relações poeta-mundo e poesia-objetos, bases dos ensaios “O poeta e seu mundo” e “Que é poesia?”, respectivamente; na sexta, enfim, tecemos uma síntese da nossa discussão acerca da posição assumida pelo poeta-crítico, nos seus ensaios, em relação ao sistema poético brasileiro.

Referências

ARTAUD, Antonin. Van Gogh, o suicidado da sociedade. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1993.

ASSIS BRASIL. Apresentação. In: FAUSTINO, Mário. Coletânea 2 – cinco ensaios sobre poesia. Org. Assis Brasil. Rio de Janeiro: Edições GRD, 1964, pp. 9-12.

ASSIS BRASIL. A nova literatura. Rio de Janeiro: Companhia Editora Americana, 1973.

CAMPOS, Augusto. Mário Faustino, o último Versemaker. In: Poesia, antipoesia, antropofagia & cia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

CAMPOS, Haroldo de. A obra de arte aberta. In: CAMPOS, Augusto; CAMPOS, Haroldo; PIGNATARI, Décio. Teoria da poesia concreta. São Paulo: Brasiliense, 1981, pp. 36-39.

CAMPOS, Haroldo de. Mário Faustino ou a impaciência órfica. In: Metalinguagem & outras metas. São Paulo: Perspectiva, 2006, pp. 189-212.

CAMPOS, Haroldo de. A ReOperação do texto. São Paulo: Perspectiva, 2013a.

CAMPOS, Haroldo de. Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora. In: Da transcriação. São Paulo: Perspectiva, 2013b, pp. 77-104.

FAUSTINO, Mário. Coletânea 2 – cinco ensaios sobre poesia. Org. Assis Brasil. Rio de Janeiro: Edições GRD, 1964.

FAUSTINO, Mário. Poesia-Experiência. São Paulo: Perspectiva, 1976.

FAUSTINO, Mário. Poesia completa / Poesia traduzida. São Paulo: Max Limonad, 1985.

FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora e outros poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

HEIDEGGER, Martin. A origem da obra de arte. Trad. Idalina Azevedo; Manuel António de Castro. São Paulo: Edições 70, 2010.

NUNES, Benedito. A poesia de meu amigo Mário. In: FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora e outros poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, pp. 45-66.

NUNES, Benedito. O “fragmento” da juventude. In: BOSI, Alfredo (Org.). Leitura de poesia. São Paulo: Ática, 1996, pp. 175-190.

POUND, Ezra. ABC da literatura. Trad. Augusto de Campos; José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, 2006.

VALÉRY, Paul. Poesia e pensamento abstrato. In: Variedades. Trad. Maiza Martins de Siqueira. São Paulo: Iluminuras, 2011, pp. 209-227.

Os ensaios longos do poeta-crítico Mário Faustino

O artigo, publicado na tradicional Revista Remate de Males (UNICAMP, Qualis A2), foi escrito em coautoria por mim e pelo meu pai, Braulio Fernandes. O PDF do texto pode ser acessado através do hiperlink acima ou do arquivo anexado abaixo, após o Resumo.

RESUMO

O poeta-crítico Mário Faustino (1930-1962) – vitimado por um acidente de avião aos trinta e dois anos de idade, no auge da sua produção – raramente é ignorado pelos estudiosos da poesia brasileira dos anos 1950 e da sua crítica. Os poemas do autor e as discussões por ele levantadas na sua página “Poesia-Experiência” (publicada semanalmente no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil entre 1956 e 1958) tornaram-se, de fato, tópicos incontornáveis para compreender os debates literários daquele momento. Neste artigo, o que se pretende é apresentar a trajetória crítico-criativa de Faustino para, assim, situar e abordar mais detidamente a parte da obra do autor que merece mais atenção: a dos ensaios longos, de caráter instrumental e didático, notadamente a daqueles compostos como “Diálogos de oficina”. Empreendemos a nossa investigação em seis breves etapas: na primeira, apresentamos um panorama da carreira do autor, destacando os desafios estéticos que ele buscou superar; na segunda, o modo como se organizou a sua obra, tendo em vista situar os três ensaios/diálogos de oficina eleitos para discussão nas etapas seguintes; na terceira, o modo como a última parte dessa obra se baseou em uma determinada poética de fragmentos; na quarta, o pensamento do autor sobre a relação poesia-sociedade, base do ensaio “Para que poesia?”; na quinta, as teses de Faustino sobre as relações poeta-mundo e poesia-objetos, bases dos ensaios “O poeta e seu mundo” e “Que é poesia?”, respectivamente; na sexta, enfim, tecemos uma síntese da nossa discussão acerca da posição assumida pelo poeta-crítico, nos seus ensaios, em relação ao sistema poético brasileiro.

Referências

ARTAUD, Antonin. Van Gogh, o suicidado da sociedade. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1993.

ASSIS BRASIL. Apresentação. In: FAUSTINO, Mário. Coletânea 2 – cinco ensaios sobre poesia. Org. Assis Brasil. Rio de Janeiro: Edições GRD, 1964, pp. 9-12.

ASSIS BRASIL. A nova literatura. Rio de Janeiro: Companhia Editora Americana, 1973.

CAMPOS, Augusto. Mário Faustino, o último Versemaker. In: Poesia, antipoesia, antropofagia & cia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

CAMPOS, Haroldo de. A obra de arte aberta. In: CAMPOS, Augusto; CAMPOS, Haroldo; PIGNATARI, Décio. Teoria da poesia concreta. São Paulo: Brasiliense, 1981, pp. 36-39.

CAMPOS, Haroldo de. Mário Faustino ou a impaciência órfica. In: Metalinguagem & outras metas. São Paulo: Perspectiva, 2006, pp. 189-212.

CAMPOS, Haroldo de. A ReOperação do texto. São Paulo: Perspectiva, 2013a.

CAMPOS, Haroldo de. Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora. In: Da transcriação. São Paulo: Perspectiva, 2013b, pp. 77-104.

FAUSTINO, Mário. Coletânea 2 – cinco ensaios sobre poesia. Org. Assis Brasil. Rio de Janeiro: Edições GRD, 1964.

FAUSTINO, Mário. Poesia-Experiência. São Paulo: Perspectiva, 1976.

FAUSTINO, Mário. Poesia completa / Poesia traduzida. São Paulo: Max Limonad, 1985.

FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora e outros poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

HEIDEGGER, Martin. A origem da obra de arte. Trad. Idalina Azevedo; Manuel António de Castro. São Paulo: Edições 70, 2010.

NUNES, Benedito. A poesia de meu amigo Mário. In: FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora e outros poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, pp. 45-66.

NUNES, Benedito. O “fragmento” da juventude. In: BOSI, Alfredo (Org.). Leitura de poesia. São Paulo: Ática, 1996, pp. 175-190.

POUND, Ezra. ABC da literatura. Trad. Augusto de Campos; José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, 2006.

VALÉRY, Paul. Poesia e pensamento abstrato. In: Variedades. Trad. Maiza Martins de Siqueira. São Paulo: Iluminuras, 2011, pp. 209-227.

Os ensaios longos do poeta-crítico Mário Faustino

O artigo, publicado na tradicional Revista Remate de Males (UNICAMP, Qualis A2), foi escrito em coautoria por mim e pelo meu pai, Braulio Fernandes. O PDF do texto pode ser acessado através do hiperlink acima ou do arquivo anexado abaixo, após o Resumo.

RESUMO

O poeta-crítico Mário Faustino (1930-1962) – vitimado por um acidente de avião aos trinta e dois anos de idade, no auge da sua produção – raramente é ignorado pelos estudiosos da poesia brasileira dos anos 1950 e da sua crítica. Os poemas do autor e as discussões por ele levantadas na sua página “Poesia-Experiência” (publicada semanalmente no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil entre 1956 e 1958) tornaram-se, de fato, tópicos incontornáveis para compreender os debates literários daquele momento. Neste artigo, o que se pretende é apresentar a trajetória crítico-criativa de Faustino para, assim, situar e abordar mais detidamente a parte da obra do autor que merece mais atenção: a dos ensaios longos, de caráter instrumental e didático, notadamente a daqueles compostos como “Diálogos de oficina”. Empreendemos a nossa investigação em seis breves etapas: na primeira, apresentamos um panorama da carreira do autor, destacando os desafios estéticos que ele buscou superar; na segunda, o modo como se organizou a sua obra, tendo em vista situar os três ensaios/diálogos de oficina eleitos para discussão nas etapas seguintes; na terceira, o modo como a última parte dessa obra se baseou em uma determinada poética de fragmentos; na quarta, o pensamento do autor sobre a relação poesia-sociedade, base do ensaio “Para que poesia?”; na quinta, as teses de Faustino sobre as relações poeta-mundo e poesia-objetos, bases dos ensaios “O poeta e seu mundo” e “Que é poesia?”, respectivamente; na sexta, enfim, tecemos uma síntese da nossa discussão acerca da posição assumida pelo poeta-crítico, nos seus ensaios, em relação ao sistema poético brasileiro.

Referências

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HEIDEGGER, Martin. A origem da obra de arte. Trad. Idalina Azevedo; Manuel António de Castro. São Paulo: Edições 70, 2010.

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NUNES, Benedito. O “fragmento” da juventude. In: BOSI, Alfredo (Org.). Leitura de poesia. São Paulo: Ática, 1996, pp. 175-190.

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Resenha: “Olha a minha carta para o mundo”: primeira tradução da poesia completa de Emily Dickinson para o português

Revista Gragoatá (POSLIT/UFF, Qualis A2)

https://periodicos.uff.br/gragoata/article/view/51454

Resumo

Nesta resenha da primeira tradução da Poesia completa de Emily Dickinson para a língua portuguesa, discutimos as diretrizes do sólido projeto editorial, crítico e tradutório tocado por Adalberto Müller. Nosso foco foi o volume 1 — os fascículos, publicado em 2020 pelas Editoras da Universidade de Brasília e da Unicamp. Simultaneamente à apresentação do projeto e das características específicas do primeiro volume, comentamos dados fulcrais à compreensão da importância da obra de Dickinson e da edição ora em análise.

Tradução: The Bull e Young Sycamore, de William Carlos Williams, no jornal RelevO

As traduções para os dois poemas de William Carlos Williams encontram-se nas páginas 18 e 19 da edição de fevereiro do jornal RelevO.

Também é possível visitar o site do jornal e conferir as demais edições no endereço: https://jornalrelevo.com/edicao/arquivo/